• Na área de engenharia e construção civil, o desafio é escolher entre compras nacionais ou internacionais
  • Construtoras preferem produtos nacionais em situações de manutenção futura, problemas na compra ou relacionamento cotidiano
  • Compras técnicas de grande complexidade tendem a ser importadas
  • Custo Total da Propriedade é um conceito importante a considerar nas compras
  • Indústria precisa adotar esse conceito e pesquisar as consequências das compras
  • Parte da indústria fornecedora encolheu devido à crise econômica, levando a aumento de importações
  • Situação ideal seria ter muitos fornecedores nacionais para produtos comuns e importar produtos complexos
  • Empresas devem valorizar a área de compras e suprimentos como estratégica
  • Paulo Resende é doutor em Planejamento de Transportes e Logística e destaca a importância do Custo Total da Propriedade.

A decisão entre comprar materiais de construção no mercado nacional ou recorrer à importação vai muito além do preço unitário. Para construtoras que movimentam volumes expressivos em suprimentos, essa escolha tem impacto direto no prazo de entrega, no custo total do projeto e na capacidade de manutenção ao longo do ciclo de vida do empreendimento.

Em setores como o da construção civil pesada, a importação é, em muitos casos, a única alternativa viável: não há fornecedor nacional que atenda às especificações técnicas exigidas. Em outros segmentos, a preferência pelo produto estrangeiro se baseia apenas no preço de aquisição, sem considerar o que vem depois da compra.

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Este artigo apresenta os critérios objetivos que orientam essa decisão, com atenção especial ao conceito de Custo Total da Propriedade (CTP) e às implicações logísticas, regulatórias e operacionais que diferenciam as duas opções.

Quando o produto importado é a escolha certa na construção civil?

Segundo Paulo Resende, professor doutor e coordenador do Núcleo de Infraestrutura, Supply Chain e Logística da Fundação Dom Cabral, a importação tende a ser preferida em compras técnicas de alta complexidade, que dispensam relacionamento contínuo com o fornecedor por se tratar de um equipamento adquirido uma única vez ou para um projeto específico.

O exemplo mais claro está na infraestrutura pesada: turbinas de hidrelétricas, equipamentos de grande porte e insumos sem equivalente no mercado nacional são categorias em que a importação não é uma escolha, mas uma necessidade. O mesmo vale para certos tipos de vidros técnicos com especificações que a indústria brasileira ainda não produz em escala suficiente.

Nessas situações, o processo de aquisição envolve uma cadeia burocrática relevante: liberação nos portos, fiscalização da Receita Federal e inspeções governamentais. A logística internacional acrescenta tempo, custo e risco à operação, o que precisa estar previsto no planejamento de suprimentos antes que a decisão seja tomada.

Quando o produto nacional é a escolha mais segura na construção civil?

A preferência pelo fornecedor nacional costuma se sustentar em três cenários principais: quando o produto exigirá manutenção futura no Brasil, quando há possibilidade de devolução ou troca por problemas de qualidade, e quando a compra demanda um relacionamento contínuo entre construtora e fornecedor ao longo da obra.

Para a maior parte das construtoras de projetos imobiliários e de infraestrutura mais leve, o desafio não é escolher entre nacional e importado, mas sim avaliar corretamente quais critérios definem o melhor fornecedor para cada categoria de material.

Materiais como tintas, insumos de acabamento e produtos amplamente disponíveis no mercado brasileiro se enquadram na categoria que Resende chama de “comoditizados”: itens em que há múltiplos fornecedores nacionais competindo por preço, prazo e qualidade. Para essas categorias, importar raramente se justifica do ponto de vista operacional.

Custo Total da Propriedade: o critério que muda a decisão

O conceito de Custo Total da Propriedade (CTP) considera não apenas o valor de transferência do produto, mas todas as consequências financeiras e operacionais que essa aquisição gera ao longo do tempo. Resende usa o exemplo do consumidor que compra um carro importado sem pensar na manutenção: só descobre o custo real da propriedade quando precisa trocar uma peça que não está disponível no mercado local e terá que esperar semanas ou meses.

Na construção civil, esse raciocínio se aplica diretamente. Uma construtora pode internalizar um produto importado no Brasil e, somente depois, descobrir que peças de reposição precisam ser encomendadas no exterior, que a assistência técnica não existe no país ou que a logística de devolução em caso de defeito é inviável.

Antes de fechar uma importação, a equipe de suprimentos precisa mapear:

  • disponibilidade de assistência técnica e reposição de peças no Brasil;
  • prazo de entrega em caso de problema e impacto disso no cronograma da obra;
  • custo de armazenamento e controle de estoque enquanto o produto aguarda liberação alfandegária;
  • risco cambial entre a data do pedido e a data de pagamento.

Ignorar essas variáveis transforma uma compra aparentemente vantajosa em fonte de retrabalho, atraso e estouro de custo.

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O encolhimento da indústria fornecedora nacional

A crise econômica dos anos recentes levou parte da indústria fornecedora da construção civil brasileira a se desmobilizar. O segmento mais afetado foi o de equipamentos ligados ao setor de transportes. A indústria de trilhos ferroviários encolheu a ponto de obras de manutenção e expansão ferroviária passarem a depender exclusivamente de fornecedores estrangeiros, principalmente da China.

O problema vai além da disponibilidade. A China, maior fornecedora desse segmento, não permite testes antes da entrega, o que significa que a verificação da conformidade do produto só acontece após o recebimento no Brasil. O resultado, em casos documentados, foram trilhos que chegaram fora das especificações e foram descartados como sucata, representando perda financeira direta e atraso nas obras.

Esse cenário ainda afeta o setor de vidros técnicos. Apesar de ser um material amplamente utilizado em edificações comerciais e corporativas, o Brasil não conta com fornecedores suficientes para atender à demanda em um ciclo de crescimento econômico, o que torna a importação necessária mesmo para construtoras que prefeririam o produto nacional.

A área de compras como função estratégica

Resende chama a atenção para um problema estrutural que afeta muitas construtoras: tratar a área de compras e suprimentos como função operacional, e não estratégica. Em empresas de grande porte, o custo total de compras pode representar até 70% do faturamento bruto. Ignorar o peso dessa função no resultado da empresa significa deixar de capturar eficiências relevantes de margem.

A boa compra não é a que oferece o maior desconto no momento da aquisição. Uma compra com desconto agressivo, mas que gera retrabalho, substituição antecipada ou paralisação de obra por falta de reposição, tem custo real muito superior ao desconto obtido.

Essa visão exige que a gestão estratégica de suprimentos envolva critérios como avaliação e qualificação de fornecedores, análise de risco de fornecimento e alinhamento entre o cronograma de suprimentos e o cronograma físico da obra.

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Como estruturar a decisão na prática?

A escolha entre produto nacional e importado se torna mais objetiva quando a equipe de suprimentos utiliza critérios claros para cada categoria de compra. Uma abordagem eficiente considera pelo menos quatro dimensões:

  • Complexidade técnica e unicidade: produtos de alta complexidade sem equivalente nacional tendem a justificar a importação. Produtos comoditizados com múltiplos fornecedores locais raramente a justificam.
  • Necessidade de relacionamento contínuo: compras que exigem acompanhamento pós-entrega, manutenção recorrente ou possibilidade de troca favorecem o fornecedor nacional.
  • Custo Total da Propriedade: o preço de aquisição é apenas uma das variáveis. Logística, armazenamento, risco cambial, prazo de entrega e custo de reposição precisam entrar no cálculo.
  • Risco de fornecimento: avaliar a estabilidade do fornecedor, a disponibilidade do produto no mercado e o impacto de um atraso na entrega sobre o cronograma da obra reduz a exposição a imprevistos que só aparecem depois da compra.

Um processo de cotação de materiais de construção estruturado, com mapa de cotação comparando nacional e importado com base nesses critérios, transforma a decisão em um processo replicável e auditável.

A decisão entre compras nacionais e importadas na construção civil não tem resposta única. O que existe são critérios claros que, quando aplicados com consistência, reduzem o risco de compras que parecem vantajosas no momento e se tornam problemas ao longo da execução.

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Assuntos: compras Construcompras
Ricardo Gazetta
Ricardo Gazetta

Executivo com mais de 20 anos de experiência em planejamento estratégico, desenvolvimento de negócios e gestão comercial, com ênfase em negócios digitais e transformação empresarial. Formado em Administração de Empresas e em Direito, possui especializações internacionais em Estratégia de Produtos e em Liderança Transformacional. Ao longo de sua carreira em grandes empresas, destacam-se a criação e a implementação de estratégias de crescimento, parcerias e inovação em marketplaces e programas de fidelidade. Atualmente, é Diretor de Marketplace do Ecossistema Sienge.