• Pesquisadores da Universidade Jaen, na Espanha, criaram tijolos verdes utilizando resíduos de fábricas de papel.
  • Os tijolos economizam energia na produção e possuem baixa condutividade térmica, atuando como bom isolante.
  • A única desvantagem é a resistência mecânica, que é menor que a dos tijolos tradicionais, mas ainda atende aos padrões exigidos por lei.

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Jaén, na Espanha, já mostrava em 2013 que era possível fabricar tijolos cerâmicos incorporando resíduos de fábricas de papel como matéria-prima. O que parecia um experimento de laboratório se revelou, com o passar dos anos, parte de uma linha consistente de pesquisa internacional sobre materiais de construção produzidos a partir de resíduos industriais.

Mais de uma década depois, o tema ganhou ainda mais relevância: o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024, e a indústria de papel e celulose segue entre as geradoras de volumes expressivos de lodo industrial — resíduo que, na ausência de alternativas, vai para aterros. A construção civil, por sua vez, está sob pressão crescente para reduzir seu impacto ambiental e absorver materiais de menor pegada de carbono. O tijolo com resíduos de papel está no cruzamento dessas duas demandas.

A pesquisa original e o que ela mostrou

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Escola Politécnica de Linares, vinculada à Universidade de Jaén, e publicado na revista científica Fuel Processing Technology. A conclusão central era direta: incorporar resíduos da indústria de papel na massa cerâmica de tijolos é viável técnica e economicamente, com benefícios ambientais mensuráveis.

Sienge Demonstração

O tijolo resultante apresentava duas propriedades relevantes para além da sustentabilidade do processo: menor consumo de energia na queima, porque o material orgânico presente nos resíduos reduz o tempo necessário no forno, e baixa condutividade térmica, que o torna um bom isolante. Segundo Carmen Martinez, pesquisadora responsável pelo estudo, a adição dos resíduos é diretamente responsável por essa característica isolante, que resulta em tijolos mais eficientes termicamente do que os produzidos pelo processo tradicional.

A única limitação identificada foi a resistência mecânica. O tijolo com resíduos de papel é menos resistente do que o tijolo cerâmico convencional, embora ainda supere o mínimo exigido pelas normas de construção vigentes. Os pesquisadores reconheceram esse ponto como o principal desafio a superar e já estavam testando misturas com outros resíduos — de cervejaria, azeite, biodiesel e lodo de esgoto — para obter resultados estruturais superiores.

Como é feito o tijolo com resíduos de papel?

O processo de fabricação começa com a mistura de dois tipos de resíduos gerados nas fábricas de papel: os resíduos fibrosos sólidos do processo de produção e o lodo proveniente do tratamento das águas residuais da planta. Esses materiais são combinados com argila e processados em máquinas de extrusão convencionais — as mesmas utilizadas na fabricação de tijolos cerâmicos comuns. O tijolo é então levado ao forno para queima.

A diferença em relação ao processo tradicional está no comportamento do tijolo durante a queima. A matéria orgânica presente nos resíduos de papel queima junto com o tijolo, gerando poros no interior da peça. São esses poros que criam câmaras de ar responsáveis pelo isolamento térmico e, ao mesmo tempo, reduzem a densidade do material. O resultado é um tijolo mais leve, com melhor desempenho térmico e produzido com menor consumo de energia, mas com estrutura interna menos densa — o que explica a redução na resistência mecânica.

Vantagens técnicas e ambientais

O tijolo com resíduos de papel concentra vantagens em três frentes:

  • Destinação de resíduos industriais: o lodo de fábrica de papel é um resíduo de difícil destinação: não é reciclável como papel, tem alto teor de umidade e custo elevado de transporte e disposição em aterro. Incorporá-lo como matéria-prima em tijolos cria um canal de valorização que reduz o passivo ambiental da indústria papeleira e o volume enviado a aterros.
  • Eficiência energética na produção: o conteúdo orgânico dos resíduos libera calor durante a queima do tijolo no forno, reduzindo o tempo de processamento e, consequentemente, o consumo de energia da olaria. Essa economia se traduz em menor emissão de CO₂ por tijolo produzido em relação ao processo convencional.
  • Desempenho térmico na obra: a porosidade criada pelos resíduos orgânicos durante a queima resulta em tijolos com baixa condutividade térmica. Paredes construídas com esse material precisam de menor suporte de climatização artificial para manter conforto térmico, com reflexo direto no consumo de energia da edificação ao longo de sua vida útil.

O desafio da resistência mecânica

A principal desvantagem documentada pelos pesquisadores de Jaén permanece o maior obstáculo técnico para adoção em larga escala: a resistência à compressão do tijolo com resíduos de papel é menor do que a do tijolo cerâmico convencional. Ela ainda atende aos requisitos mínimos das normas, mas a diferença limita as aplicações estruturais do material, especialmente em projetos com cargas elevadas ou múltiplos pavimentos.

A pesquisa contínua busca compensar esse déficit por meio de misturas complementares. A incorporação de outros resíduos industriais como agentes de melhora estrutural — escória de alto forno, cinzas de caldeira, resíduos de beneficiamento mineral — é uma das linhas investigadas para elevar a resistência sem abrir mão dos benefícios ambientais da formulação original.

O que a pesquisa mais recente diz sobre tijolos com resíduos industriais

O trabalho da Universidade de Jaén não estava isolado. Uma revisão bibliográfica ampla da literatura científica publicada até 2024 mostra produção consistente sobre tijolos e blocos cerâmicos com incorporação de resíduos industriais variados — escória metalúrgica, cinzas de caldeira, lamas de tratamento de efluentes, resíduos de processamento agroindustrial e subprodutos da mineração. O tema é transversal a diferentes países e sistemas construtivos.

Os estudos mais recentes apontam que a incorporação de resíduos industriais na massa cerâmica não é prejudicial por definição: os resultados dependem do tipo de resíduo, da proporção utilizada e do processo de queima. Em algumas formulações, a presença de resíduos melhora não apenas o isolamento térmico mas também a resistência ao fogo e o comportamento acústico do bloco.

No Brasil, pesquisas universitárias têm investigado o aproveitamento de resíduos de cerâmica vermelha, bagaço de cana-de-açúcar e escórias de siderurgia em componentes de alvenaria. O estado da arte no país avança, mas ainda há distância relevante entre o que a pesquisa produz e o que chega às obras como produto certificado e disponível no mercado.

O contexto brasileiro: resíduos industriais e construção sustentável

A dimensão do problema de destinação de resíduos industriais no Brasil torna a pesquisa em tijolos a partir desses materiais especialmente relevante. A indústria de papel e celulose brasileira — uma das maiores do mundo, com investimentos anunciados de R$ 67 bilhões até 2028 — gera lodo biológico e terciário como subproduto obrigatório do tratamento de seus efluentes. A destinação sustentável desse lodo é um desafio reconhecido pelas próprias empresas do setor, que buscam alternativas ao aterro para cumprir metas de zero aterro assumidas em seus relatórios de sustentabilidade.

Por outro lado, a construção civil enfrenta pressão crescente por redução de impacto ambiental: selos como o LEED e o PBQP-H valorizam o uso de materiais com menor pegada de carbono, e o PGRCC torna obrigatória a gestão dos resíduos gerados nos canteiros. A lógica de usar resíduos de uma indústria como matéria-prima de outra — o que a economia circular chama de simbiose industrial — está alinhada com essa agenda.

O tijolo com resíduos de papel ainda não chegou ao mercado brasileiro como produto padronizado e disponível em escala comercial. Mas a trajetória da pesquisa e a convergência de pressões ambientais e regulatórias indicam que esse tipo de material deixou de ser curiosidade científica para se tornar candidato real à cadeia de suprimentos da construção civil nos próximos anos.

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Inovação em materiais começa na especificação

A trajetória do tijolo com resíduos de papel ilustra um caminho que se repete na inovação em materiais de construção: a pesquisa científica identifica a viabilidade técnica, os testes de escala confirmam o potencial e o mercado eventualmente absorve a novidade quando a cadeia de fornecimento, os custos e as normas se alinham.

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Sienge Plataforma: ERP para construtoras
Assuntos: Ecossistema Sustentabilidade
Ricardo Gazetta
Ricardo Gazetta

Executivo com mais de 20 anos de experiência em planejamento estratégico, desenvolvimento de negócios e gestão comercial, com ênfase em negócios digitais e transformação empresarial. Formado em Administração de Empresas e em Direito, possui especializações internacionais em Estratégia de Produtos e em Liderança Transformacional. Ao longo de sua carreira em grandes empresas, destacam-se a criação e a implementação de estratégias de crescimento, parcerias e inovação em marketplaces e programas de fidelidade. Atualmente, é Diretor de Marketplace do Ecossistema Sienge.